Semana 1 - Sentimentos

Não me sinto particularmente inspirada, mas enfim, cá estamos. O sol brilha, está calor, o vento sopra, arrefece um pouco.

Gaivotas e passaritos exploram a areia, banham-se, esvoaçam, revolvem os grãos à procura de almoço. As ondas, imunes aos dramas humanos, rebentam incansáveis, rotineiras, suaves, calmantes.

Sozinha na praia, tento ocupar o tempo. Passa devagar, assim.

Sentimentos estranhos, mas costumeiros, rodopiam no meu interior. Uma certa solidão, mas não desagradável. Um certo desejo de que o tempo passe mas, também ele, não desagradável. - não estou em pulgas pelo regresso, como estava no avião. De certa forma, simplesmente observo.

Um sentimento de perda, ou pena - os dois jovens ingleses que conheci aqui puseram-se hoje à estrada, 4 meses de bicicleta pela Califórnia e América do Sul. Quanto me apetecia ir com eles! Remy e Cameron, para referência futura. Boas almas, e boa companhia. Triste por mais uma vez dizer adeus, por estes breves encontros deixarem a sua marquinha, por saber que nunca mais os verei. Mas nada é permanente, eu sei, e estes encontros não serão nada mais do que isso, breves toques de almas, sorriso e companheirismo, um roçar quase fantasma daquelas vidas que assim se encontram, casualmente, sem destino ou objectivo.

Não tenho um tipo, creio, mas havia em Remy qualquer coisa que me atraía, qualquer coisa de Daniel - aquele olhar doce e inocente, o sorriso puro e honesto, uma pequena ligação de olhares, uma descontracção para com a vida, o seu desejo doce de ter um cão "as a mate" e de viver com lobos na floresta.

Apetecem-me pessoas assim, simples.

Estar sozinha não é fácil. Mete medo.. Não creio que seja errado - acredito de facto que vivemos para estar com outros, aliás, vivemos por causa dos outros. Não acredito, portanto, no altruísmo de sermos o melhor possível para "desenvolver" a humanidade? Visto que isso não traz felicidade...

Acreditas, então, que o objectivo da vida é "ser feliz"?

Para já, parece que sim. Feliz com outros. A Ana pequenina, que pedia doze vezes para ser feliz, enquanto mastigava rapidamente doze passas, uma de cada vez, com as doze badaladas da meia-noite de ano novo, sabia qualquer coisa, assim instintiva, inocentemente.
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Registos passados, sem grandes filtros, de um dos vários estados de espírito que me levam a escrever.

Venice Beach, Califórnia, 25.1.2018

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