Semana 3 - Memórias

20.10.2019 - Memórias e os anos do pai

Sou pequenina, um pedaço de gente, e estou dentro de um labirinto infindável e escuro, gatinhando apressadamente à procura de qualquer coisa. Ao virar duma esquina, bam!, vou de encontro a uma irmã.


Desatamos às gargalhadas. Lá fora, o pai ajusta uma das paredes. O labirinto é criação sua, feito de almofadas do sofá e toalhas. Nesta altura, o pai era o melhor pai do mundo. Protector e companheiro de brincadeiras, o fofo vaidoso.


Um dia, o pai deixou de ser pai, a família foi-se embora. Será que um dos seus objectivos de vida era ter uma família? Quantos sonhos terá construído à volta deste conceito, quantos deles realizáveis, quantos utópicos? Quão disto foi culpa sua? Tudo, por ter casado com a mulher errada e não ter percebido? Nada, porque a mulher não o podia amar e ele não sabia? Metade, porque não soube dar à mulher o que ela precisava?


E que interessa? O passado é passado. Somos todos inocentes, inexprientes. Somos newbies sem ideia nenhuma a jogar um jogo com toda a gente que conhecemos sem saber as regras.E portanto, falhamos. Tumba. Uma e outra vez. E antes de nos apercebermos é demasiado tarde para mudar seja o que for, e a vida e circunstâncias tornaram-nos amargos para certas coisas, e temos que fechar o coração e os olhos, porque custa e dói, mas não admitimos, porque custa e dói e é admitir uma derrota que não estamos dispostos a aceitar.


A vida derrotou-te, pai, no que às tuas filhas diz respeito. Filhas que não tens, segundo o teu próprio discurso. Filhas que encheste de dor, sim, aqui culpo-te. O adulto eras tu. Por muito que doa – é papel de adulto engolir a dor pelos filhos, é papel de adulto ser a pessoa superior. Não te podes deixar magoar por crianças, pai, não assim. Devias ter lutado por nós. Quem me dera que tivesses lutado por nós.


E agora a adulta sou eu, também, somos as três. Agora é a nossa altura de ser superiores, superiores à nossa própria dor. É a nossa altura de não deixar que a dor governe a nossa vida, de não deixar que nos amargure o passado, e o presente. É a nossa altura de lutar por nós.


E, se calhar, de lutar pelo pai.

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